terça-feira, 23 de março de 2010

“O monstro matou a bela”


Antes de adormecer, o meu pai contava-me histórias de princesas encantadas, príncipes que cavalgavam em cavalos brancos, fadas pequeninas e brilhantes e finais felizes.
Imaginava um reino com um castelo enorme e dourado onde viviam os reis que governavam um povo feliz que andava sempre a cantar e a sorrir. Tudo lá brilhava - o sol, a lua, as estrelas, a água... Era um sítio mágico onde gostaria de viver e sonhar.

Era com a imagem desse lugar que eu adormecia e sonhava, com um mundo encantado.
Eu era a princesa daquele mundo paralelo. Os meus pais governavam o reino e organizavam muitas festas para todos se divertirem.
Eu adorava ler histórias de príncipes que salvavam princesas indefesas e que as protegiam vivendo assim, juntos para sempre. Também eu queria encontrar um príncipe que me amasse e me protegesse para toda a eternidade.
Esse príncipe apareceu com o seu cavalo branco a cavalgar por montes e vales...tudo era tão lindo, a relva tão verde e limpa, a água tão transparente e cristalina.
Ele queria-me, desejava-me com a mesma intensidade que eu o queria a ele.
Tinhamo-nos apaixonada à primeira vista. Tudo tinha sido perfeito, tudo tinha sido maravilhoso e completamente mágico.
Andavamos sempre juntos, sempre abraçados como se fossemos um só, unidos pelo nosso eterno e único amor.
Mas, no meio de tanta luz e cor, uma escuridão ia invadindo devagar os céus e os dias...
O príncipe encantado estava tão preenchido, cheio com o seu amor pela sua amada que este começou a aumentar e a aumentar cada vez mais até ser maior do que aquilo que ele conseguia aguentar. Um monstro crescia dentro dele...
Tudo nele lhe causava ciúme, raiva, ódio. Eu não podia fazer nada sem ele. Não podia passear por entre as árvores dos bosques particulares sem ele estar presente... Não podia falar com os meus pais nem com os meus amigos... Tudo o irritava, tudo o provocava!
Até que um dia, o amor estava tão grande e a loucura ainda maior que ele me fechou numa torre para mais ninguém contemplar a minha beleza, a minha energia e felicidade. Ele queria que eu fosse dele e só dele para sempre, sempre...
Embora eu o amasse muito e quisesse continuar com ele a amá-lo, o monstro estava cada vez maior e eu não podia viver fechada sem as cores, os cheiros, sem a brisa suave e a água brilhante. Não podia viver sem a Natureza, sem as pessoas, sem os meus pais...
Queria fugir, partir em busca de paz e alguma felicidade, mesmo sem o único amor da minha vida.
De repente, todo o ar ficou pesado. Toda a luz desapareceu e as trevas invadiram assim a minha visão.
O olhar dele estava tão sério, tão profundo que não parecia aquele homem por quem me tinha apaixonado e entregado o meu coração. Ele tinha sede de mais, mais de mim, mais daquilo que eu não tinha para lhe oferecer. Assim o monstro soltou-se.
Tudo escureceu e, por minutos, a única coisa que senti foi uma dor tão grande que ia aumentado cada vez mais. As minhas pernas iam perdendo forças e iam cedendo, caindo assim no chão sem qualquer reacção. Doia tanto, tanto o meu coração. Parecia que alguém o tinha arrancado, arrancado para sempre.
Quando a luz da lua entrou pela janela para me ajudar a suportar tamanha dor, as minhas mãos estavam cheias de sangue. Todo o chão, as paredes, estavam cobertas por um pano vermelho que ainda escorria...
O meu coração, esse, estava nas mãos daquele que me tinha amado tão profundamente...a loucura tinha vencido!
O meu assassino amava-me tanto que esse amor, virou loucura e, essa loucura consumiu-me até ao último suspiro.
O meu amado, o meu confidente, a minha alma gémea, a minha e sempre única metade...tinha-me matado por não suportar tamanho desejo e amor por mim... e em apenas um segundo, tudo caiu numa escuridão sem fim, numa escuridão silênciosa e profunda.

Quando abri os olhos e me apercebi que tudo não tinha passado de um sonho, também o meu coração doia, mas esta, era uma dor real, uma dor que tinha acontecido e que tinhas sido Tu a provocá-la.
Tudo morreu nesse dia para mim. Todo o amor, romance, príncipes encantados e princesas belas. Os contos de fadas não passam de histórias de pura magia sem qualquer ponta de verdade, pois na vida real, nessa que nós vivemos todos os dias, não existem almas gémeas, nem “felizes para sempre”. Apenas existe sofrimento e mágoa que nos consome todo o nosso corpo até não restar mais forças nenhumas para enfrentarmos a vida...

Mya Keast

(escrito por A.Teresa)

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