domingo, 7 de março de 2010

“ Quem me dirá quem sou?”


Todos nós já nos interrogámos vezes e vezes sem conta, quem na realidade somos, o que estamos aqui a fazer e o que é suposto fazer a seguir. Queremos saber qual é o pincipal objectivo da vida e sobretudo descobrir como ser feliz.
Fernando Pessoa não fugiu à regra; foi um dos que buscou mais a resposta a estas perguntas de várias maneiras; através da ciência, da arte, do pensamento e da observação, no meu ponto de vista.
A necessidade de se descobrir a si próprio era tão grande, e a frustração de não conseguir ser feliz ainda maior, que Pessoa vivia com náusea de si mesmo; “Que nojo de mim me fica/ Ao olhar para o que faço!”.
Há pessoas que não se importam com estas questões, vivem cada dia, cada momento como se fosse o último sem “Como?” nem “Porquê?”. Talvez elas encontrem assim a felicidade. Talvez elas se sintam cheias, preenchidas e realizadas. Eu invejo-as, pois não consigo ser assim, e Fernado Pessoa também ele invejou a ceifeira.
Desde que me lembro de pensar, procurava e procurava alguma coisa mas não sabia o quê exactamente, sabia apenas que ainda não a tinha encontrado; “ Minha alma procura-me/ Mas eu ando a monte” também pensava este poeta. É como se tivéssemos alma, mas esta não estivesse completa, falta qualquer coisa, um espaço que ainda não foi preenchido e que tem de ser preenchido.
Quando li Fernado Pessoa, por vezes olhava-me ao espelho e reflectia sobre aquilo que tinha lido, e naquilo que sempre busquei sem cessar e só pensava “Não sei quantas almas tenho./ Cada momento mudei./ Continuamente me estranho”. Com o passar dos dias e com a convivência com as outras pessoas, comecei a criar uma ideia mais concreta sobre estes versos, que outrora não eram mais que sentimentos, imagens e pensamentos soltos, dispersos. (Com a reflexão destes versos e a observação do quotidiano,) Apercebi-me que ninguém é verdadeiro, todos têm várias máscaras. Uns utilizam-nas com consciência disso e enganam, mentem, fingem. Outros, continuam a procurar as respostas às mesmas perguntas que eu e Pessoa, no entanto, ainda não chegaram a conclusão nenhuma e vivem como se tivessem um botão avariado, quer isto dizer, que um dia são ‘pessoas irritantes que adoram a chuva’ e noutro dia são super sentimentalistas e choram só de ouvir a chuva a cair lá fora. Eu sei que estou a exagerar muito, muito mesmo, mas é assim que ultimamente vejo as coisas à minha volta, sem tirar nem pôr; “Quem vê é só o que vê,/ Quem sente não é quem é”.
Tudo é tão complexo sem o ser...tantos sentimentos diferentes, modos de ver diferentes, que, por vezes, sinto-me a sufocar completamente de tal modo que “Eu vejo-me e estou sem mim,/ Conheço-me e não sou eu.”
Embora Pessoa seja complexo, confuso e, às vezes, difícil de compreender, identifico-me com ele, muito mesmo. Sinto como ele, vivo como ele e procuro as mesmas respostas que ele procurou. Mas ele, na minha opinião, foi um “felizardo”, pois conseguia ser um poeta fingidor e conseguiu criar tantos heterónimos diferentes mas completos. Conseguia expressar através da escrita aquilo que o atormentava , que o deixava em baixo. Eu ainda não encontrei nenhuma maneira para expulsar todos os demónios que vivem na minha sombra para longe, pelo menos por breves instantes.
Cada dia que passa, para mim “Viver é não conseguir”, pois luto e luto por alcançar algum objectivo, alguma meta, mas simplesmente não consigo. Tantas derrotas, tantas facadas tornaram-me numa pessoa que não sabe ser, “Não sei ser triste a valer/ Nem ser alegre deveras./ Acreditem: não sei ser”, (agora parecia Álvaro de Campos no poema “Em linha recta”). É verdade que existem outras pessoas como eu a pensarem/sentirem o mesmo que eu, eu sei, mas saber isso não ajuda a melhorar aquilo que sinto, a atenuar a fome de entender tudo, de compreender tudo e depois, com tudo isto, a minha cabeça não pára, nem por um instante sequer. Está sempre a pensar e a pensar, a analisar e a organizar... e tudo isto me deixa triste, pois sei que ser assim não me deixa viver simplesmente, sentir livremente e aproveitar ao máximo tudo. É por esta razão, por estar sempre a pensar e a ‘viajar’ que quando adormeço, “Não sei se é sonho, se realidade”, já que tudo parece tão real como se não houvesse uma ruptura e fosse a continuação sem intervalo do dia e da noite. É estranho e confuso, eu sei, eu também acho, e o facto de não me exprimir por palavras correctamente ainda faz um zoom maior sobre esta teia de emoções e sentimentos.
Com Fernando Pessoa, sinto-me melhor, pois tenho a ilusão que ele também foi como eu e assim não me sinto sozinha e dá-me esperanças de também eu conseguir fazer alguma coisa boa da minha vida e com algum sucesso, quem sabe.
Contudo, tudo o que sinto, está escondido por detrás de uma máscara, pois existem heróis por aí, mas também vilões, e esses não têm piedade por almas despedaçadas, fragmentadas até, como a minha, como a de Pessoa, e por isso é que tantas pessoas insultam os pensamentos e sentimentos de Fernando Pessoa quando o estudam.
É preciso saber bem utilizar a máscara para esta não cair e ninguém nos ver completamente ‘nus’. Precisamos de nos proteger bem , de esconder todos os nossos sonhos, pensamentos, sentimentos para sobreviver nesta selva que é a vida.
É engraçado!... Quando me ouço ou leio tudo isto que penso, assusto-me pois parece que cada vez me refugio do mundo num género de solidão interior, tentando proteger- me de todos. Mas não tenho culpa, a vida ensinou-me e continua a ensinar que deve ser assim para mim.
Tudo isto, foi o que senti quando estudei Fernando Pessoa e imaginei sobre a personalidade dele. Alguém que “levou muita porrada da vida” e que teve de superar de alguma forma. A forma certa para ele foi através da escrita, onde podia desabafar todo o seu interior e através dos heterónimos (que para mim são sinónimos de máscaras), para enfrentar a vida, para conseguir aguentar todas as batalhas.

Mas uma coisa me vem agora à cabeça, será que ele encontrou alguma resposta às perguntas? Será que ele morreu com o segredo de como ser feliz? E agora, será que eu vou encontrar algumas respostas aos meus “Porquês?” e encontrar a fórmula de ser feliz? Acho que, se não morrer de velhice, vou morrer na altura em que descobrir como ser feliz, é sempre assim. Pode ser que, quando for para o outro mundo, encontre Fernando Pessoa e possa discutir com ele sobre este assunto, seria interessante…

“Largaste uma coisa, por causa de outra, e essa outra deixa-te agora, logo, estás sozinha!”

Liadan Tussaud

(escrito por A.Teresa)

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