domingo, 27 de março de 2011

Reflexos Desfaçados – Parte 2



Ele afectava-a tanto que não conseguia controlar-se.
A fúria estava a consumi-la de tal maneira que, por momentos, ficou cega. Só conseguia ver uma névoa que lhe toldava a visão, a concentração. Algo queria sair depressa e furiosamente. Uma das suas máscara queria tomar o controlo e viver aquela fúria que estava a sentir.
A parede que estava à sua frente, estava revestida por papel de parede branco para pintar à vontade como forma de tratamento para os seus ataques de pânico, fúria. Nesse dia, toda a sala estava revestida por esse papel. Algo estava para sair e Keli não sabia qual era a magnitude do monstro desta vez.
Começou a desenhar o tecto com a ajuda de um escadote para subir e descer enquanto ia buscar tinta ou ia para outra ponta pintar. Parecia uma tempestade que ia crescendo a cada milímetro que ia pintando. Algo fervilhava dentro dela, pois a pintura parecia espontânea e explosiva, magnífica.


Enquanto percorria todo o tecto com as cores assustadoras e sinistras, Cam observava-a da porta.
Tudo aquilo parecia surreal e arrepiante. Keli parecia que estava domada por uma qualquer criatura que a estava a possuir e a abusar do seu corpo para expelir todo aquele fogo, raiva e ódio.
Enquanto olhava para ela, uma enorme vontade cresceu dentro dele. Também ele queria juntar-se a ela, naquela dança estonteante.
Em poucos minutos, enquanto Cam tinha ido mudar de roupa, toda a tempestade preenchia aquela pequena sala. Parecia que se ouvia o som dos raios e trovões. Os ventos fortes a soprarem, toda aquela veemência, toda aquela força empregada na sala, empregada contra eles os dois, meros seres vivos em relação àquela força da natureza.
Todo aquele ambiente deu-lhe um aperto no coração. Começou a ver algo no seu pensamento e começou a pintar a parede oposta à que a Keli estava a pintar, nesse momento.
Não conseguia pensar, pois o seu pensamento estava ainda mais confuso do que a visão que tinha mesmo à frente dos olhos mas invisível para os outros.
Parecia que toda a sala já estava pintada. Ela apenas carregava mais nos traços, nas cores para a pintura ficar com mais vida, real. Ela apenas a realçava.
Estava a desenhar-se a si própria no meio da parede. Ela possuia uma beleza enorme, uma beleza que desconhecia.
Keli estava envolta por trevas, nevoeiro, fogo, fantasmas... Uma mistura tão intensa e verdadeira que parecia que tudo aquilo saía do seu corpo fazendo um conjunto, um todo. Em volta de tudo aquilo, estavam todas as suas vozes e pensamentos. Monstros representados pelas várias personagens que conviviam com ela todos os dias. Todas elas tinham ódio, raiva, agressividade no olhar.
Toda a imagem a assustava mas era aquilo que ela sentia. Que era real na sua cabeça.


Todas elas estavam enroladas umas nas outras não se percebendo onde era o início ou o fim de cada uma. Todas queriam assumir o controlo, todas queriam e tentavam separar-se umas das outras mas sem qualquer sucesso. Elas dependiam umas das outras e todas dependiam da verdadeira Keli, o ser frágil e assustado que ela era. Como poderiam matar-se, destruírem-se se todas elas eram o oposto umas das outras mas eram iguais formando uma esfera perfeita e inquebrável?
Toda aquela imagem preenchia as três paredes da sala. Tudo explodia através das cores, dos traços...
Quando olhou para trás e se apercebeu quem estava a seu lado e o que ele estava a fazer, começou a pintar juntamente com ele o chão de toda aquela história.
Quando tudo começou a serenar, quando a visão começou a voltar devagar para ir habituando o corpo àquela mudança brusca de personalidade, de pensamento; quando se entre olharam e olharam à sua volta e viram tudo aquilo, nenhuma palavra foram capazes de proferir.
Na parede onde Cam tinha estado a soltar os seus pensamentos, encontrava-se o menino assustado que tinha sido, juntamente com o seu irmão. Um homem estava deitado a seu lado, completamente imóvel, sem vida. Ele estava envolto em lençóis que o tapavam parcialmente. Um mapa servia de base para todo aquele enredo. Num dos extremos do mapa estava um colar com o coração de prata. Na outra ponta estava um baú fechado e muito antigo. No extremo oposto estava o colar com a chave que abria esse mesmo baú. No último extremo estava um coração trespassado por um pincel. Um coração humano tão real que parecia que ainda batia cessantemente para continuar a dar vida àquela tempestade, àquele monstro.
No chão, duas figuras estavam unidas num amor forte, ardente e profundo. Não se percebia onde é que se uniam um ao outro. Só se sentia o calor daquele fogo que invadia os dois corpos numa dança sedutora, insolente.
Todo o redor daqueles dois seres apaixonados estava repleto de espelhos reflectindo vários pedaços de consciência, pensamento, alma. Tudo brilhava, tudo se movia, tudo se tocava, amava...


Quando saíram da sala e observavam mais atentamente toda aquela energia, todo aquele interior, não conseguiam dizer uma única palavra, uma única explicação nem conseguiam justificar absolutamente nada... Tudo parecia tão real, tão verdadeiro. Keli e Cam a possuírem-se ali, mesmo no meio de toda aquela tempestade, numa forma tão violenta, tão selvagem. Tinham deixado todos os medos, todo o passado e tinham-se entregado apenas ao que sentiam verdadeiramente.Entreolharam-se. O olhar de ambos possuía ardor, raiva, surpresa.
Keli não sabia que horas eram. Tinha estado lá no início da noite, era só isso que se lembrava antes de a visão lhe atordoar o pensamento. Agora, depois de tudo aquilo, podia já ser de manha, não sabia.
Sentia-se cansada. Queria respostas, queria gritar, bater em alguém mas ainda não se sentia bem dentro de si, daquele corpo. Quando ia para se ir embora, algo lhe puxou o braço fazendo-a virar para encarar Cam que a olhava com uns olhos provocadores.
- Não penses que foges assim tão facilmente de mim.
- Larga-me! O que pensas que estas a fazer?
- A fazer aquilo que acabámos de pintar.
Agarrado-a de uma forma determinada, disposto a expulsar todos os fantasmas, todas as vozes, todas as morais e deveres de ambos, Cam levou-a para a cama dela e possuíu-a ali mesmo, com toda aquela tempestade a vibrar mesmo na sala ao lado. Todas as máscaras tinham caído e tinham-se perdido no meio do vendaval.
Ambos estavam nus, expostos um ao outro. Ambos estavam dispostos a dar uma parte de si ao outro para matar aquela fome, aquela ânsia de destruir tudo, de possuir tudo.
Quando tudo acabou, quando toda aquela energia tinha sido gasta, ambos adormeceram por horas a fio, agarrados e a sonhar. Mas será que apenas estavam a sonhar um com o outro? Será que o sonho era apenas isso, um sonho ou um pesadelo?


Keli Ruthven
(A.T.O)

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